Título:
Estado é burocrata até para receber doação
Data:
08/03/2010
Hora:
15:27:11
Fonte:
Revista IstoÉ Edição 2104 de 05.03.10
Revista IstoÉ Edição: 2104 de 05.03.2010 O exemplo de José Mindlin Ao deixar para uma instituição pública a mais importante biblioteca privada do País, o empresário mostrou que, até para ser generoso, o brasileiro tem de enfrentar o Estado Natália Rangel O empresário, advogado e bibliófilo paulista José Mindlin costumava dizer que não tinha o “fetiche da propriedade” e atribuía a si mesmo e a sua esposa, Guita, falecida em 2006, o papel de “guardiões” temporários dos 40 mil livros de sua biblioteca particular. Para ele, o vasto acervo literário que reuniu ao longo de sua vida já tinha um destino certo: uma instituição pública. Mindlin morreu no domingo 28, de pneumonia, aos 95 anos, sem ver o seu maior sonho realizado: a conclusão das obras da biblioteca que leva o seu nome na Universidade de São Paulo. A demora na finalização do projeto almejado há tanto tempo se explica: o empresário, que também atuou como secretário da Cultura do Estado de São Paulo, inacreditavelmente teve de brigar oito anos para conquistar o direito legal de doar os seus livros, o que ocorreu finalmente em 2006. E o que faz do simples e generoso gesto da doação uma árdua tarefa na qual se tem de superar uma infinidade de entraves burocráticos? No caso brasileiro, a culpa é de uma legislação que trata, a priori, o doador ao Estado como mal-intencionado ou fraudador em potencial. Sempre se parte do princípio de que ele vai receber even­tuais favorecimentos pessoais. Assim, dificulta-se indiscriminadamente o processo com muita burocracia e nenhum incentivo fiscal.