Pessoal, vejam abaixo como o excesso de legislação impede o desenvolvimento sócio-econômico do país e beneficia o réu e o devedor.
Rafael de Menezes
JUSTIÇA
O Brasil das 181 mil leis
Em um dos mais anacrônicos regimes legais
do mundo, o País bate recorde de leis,
muitas das quais obsoletas
Por Rudolfo Lago
Imagine um oficial britânico, herói de guerra. Ele perdeu a perna em
combate
contra os nazistas na Segunda Guerra Mundial. Agora, aos 80 anos, ele
resolve passar o verão no Brasil. Ao desembarcar no aeroporto, porém, é
barrado e mandado de volta para casa. Motivo alegado pelas autoridades:
o
estrangeiro não pode entrar porque é mutilado e tem mais de 60 anos de
idade. Por incrível que pareça, tamanho absurdo está previsto na
legislação
brasileira. O decreto-lei nº 4.247 dá amparo legal a essa medida que
poderia, em última instância, causar um grave conflito diplomático.
Trata-se
de uma norma discriminatória criada em 1921 para regular a entrada de
imigrantes e até hoje em vigor. É o exemplo esdrúxulo de um cipoal que
confunde juízes, advogados e qualquer cidadão brasileiro: o número
excessivo
de leis brasileiras. O Brasil tem nada menos que 181 mil normas legais,
segundo um levantamento feito pela Casa Civil da Presidência. E ninguém
sabe
ao certo quantas delas já foram revogadas e quantas ainda estão em
vigor.
ENTULHO “O excesso de normas é um dos maiores problemas do Brasil”, diz
o
deputado Vaccarezza
Muitas normas caducaram e perderam completamente o sentido. Existem
leis
feitas para um homem só (leia quadro acima), decretos que dão ao
ministro
das Relações Exteriores a prerrogativa de permitir casamentos de
diplomatas
de carreira com pessoas estrangeiras e até mecanismos automáticos de
indexação salarial, resquício da época da hiperinflação. Legislações
antigas
colidem com outras mais novas ou às vezes diferem apenas em pequenos
detalhes. Leis específicas estabelecem penas maiores ou menores para
delitos
já especificados no Código Penal. Na prática, se há muitas normas
legais
aplicáveis no julgamento de um determinado delito, o que prevalece no
final
depende da competência do advogado ou da decisão do juiz. O excesso de
normas legais onera as empresas, obrigadas a contratar caros serviços
advocatícios e consultorias jurídicas. E prejudica os cidadãos. O
resultado
é um estado de freqüente insegurança jurídica. As pessoas se tornam
completamente incapazes de resistir a um princípio básico do direito:
ninguém pode alegar em sua defesa o desconhecimento da lei. “No Brasil,
acontece o oposto. Ninguém pode dizer que conhece completamente as
leis”,
critica o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP).
ENXUGAMENTO “Um trabalho bem feito poderia deixar o País com 500 a mil
leis”, prevê Gandra Filho, ministro do TST
Vaccarezza foi designado pelo presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia
(PT-SP), para presidir um grupo especial que terá como tarefa avaliar
todas
essas 181 mil leis e eliminar tudo o que houver de excesso. A idéia é
expurgar de uma vez por todas as leis efetivamente revogadas, extinguir
aquelas que a modernidade tornou caducas, unir as que se repetem e
eliminar
as que colidem entre si. Sobrarão, se tudo der certo, não mais do que
mil
leis no País. Elas serão publicadas em 18 volumes de acordo com o tema
a que
se referem. “Será um grande avanço. O excesso de normas é um dos
maiores
problemas do Brasil”, afirma Vaccarezza.
Somente na área tributária, existem nada menos que 809 leis, decretos,
portarias e resoluções em vigor. É um inferno para qualquer empresa ou
cidadão que paga seus impostos e taxas em dia. Algo que o jurista Ives
Gandra Martins chama de “disenteria legislativa”. A necessidade de
enxugar a
legislação brasileira é um tema que fascina o filho do jurista, o
ministro
do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Ives Gandra Martins Filho. No
governo Fernando Henrique Cardoso, ele integrou, juntamente com o hoje
ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, uma comissão que
tentou
iniciar a consolidação legal na Casa Civil da Presidência. “Na época, a
tentativa não avançou mais porque talvez tenha faltado um projeto de
marketing que sensibilizasse as pessoas e os políticos sobre o tamanho
do
problema”, diz Gandra Filho.
LEIS CADUCAS “Muitos advogados invocam leis (inconstitucionais) em
processos”, afirma Mendes, ministro do STF
De qualquer modo, o trabalho anterior servirá de base para o início do
projeto que Vaccarezza irá tocar na Câmara. Cada um dos ministérios já
fez
um mapeamento da legislação nos seus respectivos setores. Tudo foi
processado em um programa de computador desenvolvido pelo Serviço de
Processamento de Dados do Senado (Prodasen). Três CDs entulhados com
milhares de leis, normas, decretos e similares deverão ser
meticulosamente
estudados para reduzir o total a ponto de caber num simples disquete.
“Um
trabalho de enxugamento bem feito poderia deixar o País com algo entre
500 e
mil leis”, estima Gandra Filho.
No STF, o ministro Gilmar Mendes já garantiu a Vaccarezza a adesão do
Poder
Judiciário ao processo de enxugamento legal. E encaminhou à presidente
do
Supremo, Ellen Gracie, um pedido para que o tribunal envie ao deputado
uma
lista de leis que já foram julgadas inconstitucionais. “Por incrível
que
pareça, muitas dessas leis não foram explicitamente revogadas e há
muitos
advogados que às vezes as invocam em processos. Eliminá-las de vez vai
representar uma redução significativa na quantidade de leis vigentes”,
afirma. Sinal da confusão legislativa brasileira, nem mesmo o STF sabe
ao
certo quantas seriam essas leis.
Maria Teresa C C Cortez Lima
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