PROPRIEDADE -
aula 7 em 09.09.04
É
o mais importante e complexo direito real. É o único direito
real sobre a coisa própria (sobre os nossos bens), pois os
demais direitos reais do art. 1225 são direitos reais sobre as
coisas alheias, sobre os bens de terceiros (é o assunto do
próximo semestre = os direitos reais na coisa alheia).
A
importância da propriedade é imensa na nossa vida, afinal nosso
principal interesse na vida é no acúmulo de bens, na formação de
um patrimônio (alguém discorda?).
Quanto mais se protege a propriedade mais se estimula o trabalho
e a produção de riquezas em toda a sociedade; negar esse direito
representaria uma atrofia no desenvolvimento sócio-econômico;
por que estudar e trabalhar tanto se o que eu ganhar e produzir
não vai ficar para mim e para meus filhos? É da natureza humana,
desde o homem primitivo, de se apoderar da caça, de peles, de
armas e ferramentas.
Nosso ordenamento protege a propriedade a nível constitucional (arts.
5º, XXII e 170, II)
A
propriedade é mais difícil de ser percebida do que a posse, pois
a posse está no mundo da natureza, enquanto o domínio (=
propriedade) está no mundo jurídico. Eu sei que vocês têm a
posse das roupas, livros e relógios que estão usando agora, mas
não tenho certeza se vocês são realmente donos desses objetos.
Conceito: há vários: 1) propriedade é o poder pleno sobre a
coisa; 2) é a submissão de uma coisa a uma pessoa; 3) é o
direito real sobre a coisa própria, etc. 4) Adotemos o conceito
do código, que é muito bom e a lei está sempre ao nosso alcance:
ver art. 1228.
Então a propriedade é o poder de usar, fruir (=gozar) e dispor
de um bem (três faculdades/atributos/poderes do domínio) e mais
o direito de reaver essa coisa do poder de quem injustamente a
ocupe.
CARACTERÍSTICAS DA PROPRIEDADE
1
– Complexidade: pelo conceito legal de propriedade se percebe
porque se trata de um direito complexo, como dito na primeira
frase de hoje. A complexidade é justamente porque a propriedade
é a soma de três faculdades e mais esse direito de reaver de
terceiros. Expliquemos estas três faculdades e este direito de
reaver:
Uso – é o jus utendi, ou seja, o proprietário pode usar a coisa,
pode ocupá-la para o fim a que se destina. Ex: morar numa casa;
usar um carro para trabalho/lazer
Fruição (ou gozo) – jus fruendi; o proprietário pode também
explorar a coisa economicamente, auferindo seus benefícios e
vantagens. Ex: vender os frutos das árvores do quintal; ficar
com as crias dos animais da fazenda.
Disposição – jus abutendi; é o poder de abusar da coisa, de
modificá-la, reformá-la, vendê-la, consumi-la, e até destruí-la.
A disposição é o poder mais abrangente.
Exemplo: se eu sou dono de um quadro eu posso pendurá-lo na
minha parede (jus utendi), posso alugá-lo para uma exposição
(jus fruendi) e posso também vendê-lo (jus abutendi).
O
dono pode também ceder a terceiros só o uso da coisa (ex:
direito real de habitação do 1414); pode ceder o uso e a fruição
(ex: usufruto do 1394 e superfície do 1369); pode ceder só a
disposição (ex: contrato estimatório do 537). O proprietário tem
as três faculdades, já o possuidor tem pelo menos uma dessas
três (1196, 1204).
Além de ser a soma destas três faculdades, a propriedade produz
um efeito, que é justamente o direito de reaver a coisa (parte
final do 1228). Como se faz isso, como se recuperam nossos bens
que injustamente estejam com terceiros?
Através da
ação reivindicatória. Esta é a ação do proprietário sem posse
contra o possuidor sem título. Esta ação serve ao dono
contra o possuidor injusto, contra o possuidor de má-fé ou
contra o detentor.
Não confundam
com a ação possessória, já estudada. A possessória é a ação
do possuidor contra o invasor, que inclusive pode ser o
proprietário (ex: locador quer entrar a qualquer hora na casa do
inquilino, alegando ser o dono; não pode. Mas o proprietário que
aluga uma fazenda também pode usar a possessória se o MST ameaça
invadir e o arrendatário não toma providências, afinal o
proprietário tem posse indireta). A vantagem da possessória é a
possibilidade de concessão de liminar pelo Juiz. Na
reivindicatória não cabe liminar.
Este direito
de reaver é conseqüência da seqüela, aquela
característica dos direitos reais que nós vimos na primeira
aula, e que permite que o titular do direito real o exerça
contra qualquer pessoa.
2 – É direito
absoluto: se o proprietário pode dispor, pode abusar da coisa
(jus abutendi), pode vendê-la, reformá-la e até destruí-la. Esse
absolutismo não é mais pleno pois o direito moderno exige que a
coisa cumpra uma função social, exige um desenvolvimento
sustentável do produzir evitando poluir (ver § 1º do 1228).
Respeitar a
função social é um limite ao direito de propriedade; outro
limite são os direitos de vizinhança, que veremos em breve.
Lembro que,
quando uma propriedade não cumpre sua função social, o Estado a
desapropria não para si (o que seria comunismo ou socialismo),
mas para outros particulares que possam melhor utilizá-la. Isso
só comprova que nosso direito valoriza a propriedade privada.
É absoluto
também porque se exerce contra todos, é direito erga omnes,
todos vocês têm que respeitar minha propriedade sobre meus bens
e vice-versa. Já falamos disso quando vimos na primeira aulas a
distinção entre direitos pessoais e reais.
3 –
Perpetuidade: os direitos de crédito prescrevem, mas a
propriedade dura para sempre, passa inclusive para nossos filhos
através do direito das sucessões (Civil 7). Quanto mais o dono
usa a coisa, mais o direito de propriedade se fortalece. A
propriedade não se extingue pelo não-uso do dono, mas sim pelo
uso de terceiros. Então eu posso guardar meu relógio na gaveta
que ele continuará meu para sempre. Eu posso passar décadas sem
ir ao meu terreno na praia. Mas se alguém começar a usá-lo,
poderá adquiri-lo pela usucapião.
4 –
Exclusividade: ver 1231; o proprietário pode proibir que
terceiros se sirvam do seu bem; a presunção é a de que cada bem
só tem um dono exclusivo, mas nosso ordenamento admite o
condomínio (veremos condomínio em breve, e veremos também como a
lei facilita a extinção do condomínio justamente porque a
propriedade é um direito tão amplo e complexo que não é fácil
ser exercido por duas pessoas sobre uma única coisa).
5 –
Elasticidade: a propriedade se contrai e se dilata, é elástica
como uma sanfona; por exemplo, tenho uma fazenda e cedo em
usufruto para José; eu perco as faculdades de uso e de fruição,
minha propriedade antes plena (completa) vai diminuir para
apenas disposição e posse indireta; mas ao término do usufruto,
minha propriedade se dilata e torna-se plena novamente.
SUJEITOS
Quais os
sujeitos no direito de propriedade? De um lado o sujeito
ativo, o proprietário, qualquer pessoa física ou jurídica,
desde que capaz. O menor pode adquirir mediante representação do
pai ou do tutor (vocês estudaram representação em Civil 1 e
voltarão a ver em Direito de Família; depois vejam o art. 1º,
1634, V, 1747, I). Do outro lado o sujeito passivo
indeterminado, ou seja, todas as demais pessoas da sociedade
que devem respeitar o meu direito de propriedade.
OBJETO
O objeto da
propriedade é toda coisa corpórea, móvel ou imóvel. Admite-se
propriedade de coisas incorpóreas como o direito autoral
(estudaremos neste semestre) e o fundo de comércio (vocês vão
estudar em Direito Comercial). Lembrem-se que a pessoa mais rica
do mundo hoje (Bill Gates) possui propriedade incorpórea
protegida pelo direito do autor (os softwares).